Não devemos pensar que utilizar o sentimento de insatisfação adequadamente refira-se somente a situações dramáticas. Pelo contrário, várias possibilidades de mudança estão presentes em vários aspectos da vida cotidiana. Ações aparentemente pequenas podem contribuir para melhorar em muito o ambiente de trabalho, um relacionamento a dois, a vida familiar, o atendimento ao cliente. Veja este exemplo, conforme relatado por um de nossos alunos:

‘‘Trabalho como supervisor de uma loja de departamentos, no Rio de Janeiro, e vivemos sob severa pressão psicológica devido ao grande número de problemas que uma loja que tem aproximadamente cinco mil clientes diários, enfrenta.

‘‘Supervisiono nove pessoas e percebia que algumas colaboradoras estavam cometendo erros que, costumeiramente, não cometiam. Fiquei muito insatisfeito com o ocorrido e tive várias reuniões com elas, mas o tempo passava e as mudanças no comportamento não ocorriam. Passei a queixar-me com outras pessoas sobre a atitude delas, apontando erros, criticando e, mais alguns dias depois, passei a cogitar a recomendação, junto a meus superiores, de demissão. Foi quando em uma aula do treinamento que participava, escutei um depoimento de um empresário que falava da necessidade de darmos vazão adequadamente às nossas emoções, de realizarmos um diagnóstico com clareza de algumas situações para que, então, pudéssemos agir.

‘‘Decidi que utilizaria minha insatisfação de modo inteligente, e, após acalmar-me, concluí que o comportamento das colaboradoras deu-se após mudanças na estrutura da remuneração variável que a empresa passou a adotar – sem no entanto, demonstrar adequadamente como o sistema poderia melhorar em muito os resultados para os vendedores, caso algumas atitudes fossem tomadas. Com calma, iniciei uma conversação amigável com elas e, raciocinando calmamente, pude demonstrar que elas poderiam ser muito beneficiadas com o novo sistema, se fizessem algumas mudanças. Uma vez convencidas disso, a atitude delas mudou radicalmente para melhor. Foi impressionante como mudar minha atitude de queixas e reclamações para ação inteligente fez uma grande diferença.’’

Note também como a insatisfação pode ser utilizada proveitosamente no comércio, conforme um de nossos alunos, no Rio de Janeiro, relatou:

‘‘Tenho duas lojas que vendem sapatos e acessórios femininos, que construí com muito trabalho e dedicação. À medida que ia crescendo em meu negócio, o número de colaboradores aumentava e assumi várias responsabilidades adicionais junto a associações de classe local, delegando algumas tarefas para meus colaboradores. No entanto, as compras de mercadorias continuavam sob minha responsabilidade. Deixei de concentrar-me em meu negócio por conta de má gestão do tempo e, consequentemente, não acompanhei como deveria as mudanças em meu segmento, as preferências dos clientes e passei, então, a comprar mal. É claro que as vendas caíram e atribuía isso, inicialmente, a um período econômico ruim, sem aprofundar-me na verdadeira causa.

‘‘Comecei a queixar-me dizendo que faltava empenho aos vendedores, falta de motivação e coisas do tipo. Vivia angustiado e perguntando-me se era hora de retirar-me de minha atividade comercial. No entanto, no meio de um redemoinho de pensamentos pouco produtivos, fui abordado por um de meus mais antigos funcionários que, com franqueza e habilidade, argumentou que a queda nas vendas não era devido a dificuldades econômicas na cidade – e sim ao gosto duvidoso dos artigos que revendíamos. Fiquei chocado ao ouvir isso, mas não via alternativa viável e teria muito pouco a perder se o deixasse fazer compras, algumas vezes, para fazer um teste.

‘‘Para minha surpresa, ele estava certo. À medida que ele trazia novos artigos, as vendas começavam a recuperação, e, em menos de 6 meses, atingimos resultados maravilhosos. A insatisfação por si só, nada resolveu. Foi necessário que mudasse minha atitude, saísse de minha zona cômoda e tentasse uma atitude diferente. Desde então, quando enfrento dificuldades consistentes, pergunto se preciso mudar minha perspectiva e transformar insatisfação em ação inteligente.’’

Portanto, não fique atolado no pântano das queixas e reclamações. Aproveite os incômodos que encontra ao longo de sua vida, transformando-os em pontos de apoio para “alavancar” uma vida melhor. Atue com sabedoria, com menos impulsividade prejudicial e torne-se mais eficaz naquilo que faz. A história a seguir serve como uma inspiração para que possamos rever nosso ponto de vista sobre aquilo que nos aflige, e então, a agir com mais discernimento.

Dois pescadores estavam à beira de um rio, quando repentinamente, ouviram gritos de duas crianças, sendo trazidas pela correnteza. Os pescadores resgataram-nas, com muito esforço. Em seguida, mais gritos, agora de quatro crianças, das quais conseguiram salvar duas. Mal acabam de sair e agora gritos de oito crianças. Um dos pescadores pula na água, enquanto o outro ruma para a estrada que acompanha a subida do rio. O que pulou na água reclamou:
– Você está doido? Não vai me ajudar?
O outro respondeu:
– Faça seu melhor. Vou ver por que as crianças estão caindo.

Conforme a história mostra, mais eficaz que a reclamação é a ação inteligente. E em seu caso? O que lhe causa, atualmente, algum tipo de insatisfação que pode ser transformado em forte razão para mudanças?

A ‘‘PEDRA NO SAPATO’’ SERVE como AVISO

A insatisfação pode ser um importante aliado para que possamos crescer e desenvolver nosso potencial. Quando algo nos incomoda, isso deveria servir de aviso para que mudemos o rumo de nossas ações. Ao olharmos no espelho e ficarmos insatisfeitos com um peso inadequado, pode ser o “gatilho” necessário para que iniciemos uma série de ações visando chegar ao peso adequado. Ao trabalhar muito tempo em uma empresa, em que não se sinta valorizado, pode-se, então, iniciar a busca de uma oportunidade em outra instituição. Num relacionamento a dois, em que não há evidência de reciprocidade no afeto, há um bom tempo, há a possibilidade de começar novamente com alguém que tenha mais chances de corresponder minimamente às expectativas. Se após investigação de oportunidades, sua cidade ou região não oferecem condições mínimas necessárias para aquilo que você ambiciona, buscar um outro local onde maiores perspectivas existam pode ser a solução.

Está incomodado? As condições não mudam? Algumas pessoas com quem você se relaciona não mudam? Se estiver insatisfeito, mude primeiro. Eis a ideia.