Todos reclamamos e somos, às vezes, negativos, um pouco “fofoqueiros” e até mesmo um pouco “maldosos” . Não somos máquinas programáveis com instruções que são executadas sem erros. Ter alguém que escuta nossas queixas, insatisfações e problemas pode ajudar a lidar melhor com situações difíceis e desafiadoras, especialmente, quando temos confiança em quem nos ouve e também quando esses fornecem hábeis orientações. Mas, se constantemente, vivermos nos queixando e reclamando, sem sinalizar de modo concreto que estamos fazendo algo para mudar, tornamo-nos pessoas de quem a maioria quer se afastar.

Aprender a lidar produtivamente com a insatisfação é, então, um passo decisivo para a autogestão e o desenvolvimento da capacidade de liderar, pois, quem não lidera bem a si mesmo, certamente, enfrentará dificuldades ao tentar lidar com outros. Se você enfrenta uma situação que lhe causa uma forte insatisfação e se compromete com um objetivo claro e definido de mudança, parabéns! Segundo Michael Samuelson, diretor-executivo do Centro Nacional de Promoção da Saúde (EUA), existem 5 etapas nos processos mentais de mudança e esse é o estágio de número 3, “Preparação”, conforme será apresentado:

1. Pré-contemplação, quando pessoas próximas falam sobre algumas atitudes suas que devem ser mudadas, mas você não dá muita importância. Na verdade, é uma atitude mais ou menos parecida com o “tô nem aí; isso não é comigo”. Ou: “meus amigos estão exagerando, não é bem assim”.
2. Contemplação, quando você visualiza situações alternativas à atual, no entanto, pode permanecer “inerte”. Se houver um impulso adicional, como um incentivador, as chances de romper com a inércia aumentam muito.
3. Preparação, que é praticamente o limiar da ação, uma etapa decisiva. Somente 15% das pessoas chegam a esse estágio.
4. Ação. Você entra em ação e deve manter o ritmo para obter resultados e estímulo para continuar.
5. Manutenção, quando você se encontra com uma nova forma de pensar e sente-se mal quando percebe que não realiza novos projetos, sai de sua zona de conforto e ações similares. No entanto, sob pressão psicológica, pode haver um retorno a antigas atitudes.

Perceba o papel do comprometimento com novos objetivos derivados da insatisfação com uma situação angustiante, conforme relatado por um de nossos alunos na Bacia de Campos, no Rio de Janeiro:

‘‘Eu e minha família vivíamos em extrema pobreza. Tinha nove anos e lembro-me de que eu e meus irmãos íamos ao ‘lixão’ para conseguirmos alimento, juntamente com mamãe, que nos criou. Não estava estudando, pois nossa condição não permitia que pensasse em outra coisa senão conseguir o alimento para o dia. Certa vez, vi mamãe desesperada com nossa situação, pois estava sem perspectiva alguma e descobri, então, que ela havia se envolvido com a prostituição somente com o objetivo de tentar nos tirar, o mais rápido possível, dessa situação. Na época, já tinha 11 anos e, com meu pouco discernimento, disse a ela que, um dia, não precisaria sofrer e que não iria mais precisar fazer isso pra nos sustentar.

‘‘Incentivaram-me a voltar para a escola pública e voltei. Vendia balas e doces, após a aula, nas ruas. Trabalhei duro, estudei do jeito que pude, consegui obter, mais tarde, o segundo grau pelo sistema supletivo; trabalhei como auxiliar de serviços gerais, servente de pedreiro, garçom, office-boy, almoxarife, auxiliar de escritório, até que cheguei à supervisor de uma cozinha industrial. Agora, 13 anos se passaram, tenho minha casa, em que moro com mamãe e meus irmãos e preparo-me para abrir meu próprio negócio.

‘‘Ao olhar para trás, percebo que aquele dia em que determinei que meu futuro seria diferente foi decisivo para a vida de minha família. Canalizar minha insatisfação para um objetivo relevante foi o que fez toda a diferença.’’

Diante do que falamos até agora, como você percebe a insatisfação? É bom refletir.