Há gosto para tudo. Alguns gostam de camarão e outros, não gostam. Alguns não “vivem” sem ler o jornal, diariamente, outros leem somente nos fins de semana e outros quase não folheiam as páginas quando compram. Uns torcem pelo Vasco da Gama e outros, para o Flamengo. Muitos gostam de dance music e outros são fanáticos por funk. Simples assim, pois “gosto não se discute”. Por exemplo, imagine-se em casa após um árduo dia de trabalho, com vontade de descansar e subitamente, encontra seu filho de 10 anos em casa – com um coleguinha do colégio – ouvindo no volume mais alto do aparelho de som a “última sensação do funk”. Mas há um detalhe: você detesta funk. O que faz? Destrói seu moderno sistema de som ou simplesmente muda a “trilha sonora”? É provável que tomará como decisão a segunda alternativa.

Por que, então, quando encontramos situações que nos desagradam, com tanta frequência costumamos reclamar delas, desperdiçando energia, gerando às vezes um ambiente “pesado” no trabalho , em nossa família e em tantas ocasiões em que estamos em grupos? Não há dúvida de que externar aquilo que nos aborrece pode gerar um certo alívio. É claro que todos, sem exceção e em graus variados, reclamamos de situações que nos afligem. O que destacamos aqui é o fato de um sem-número de pessoas desperdiçarem energia reclamando sem utilizar as situações incômodas como “trampolim” para uma situação melhor.

Em 2000, tive a oportunidade de realizar uma pesquisa com microempresários envolvendo desde empresas de alimentação, transportadoras, escritórios de contabilidade e outros segmentos. Foram entrevistadas 132 pessoas e na época um dos questionamentos feitos era: “O que lhe motivou a abrir o seu negócio?” A resposta foi surpreendente. Em 63% das situações, o principal motivador foi a insatisfação com a maneira que os sócios (patrões) anteriores lidavam tanto com os colaboradores como com as ideias e sugestões oferecidas por eles no que tange a mudanças e melhorias na empresa. Esse grupo de entrevistados, de modo proativo, ao invés de perder tempo apenas com queixas e reclamações, lembrou dos dizeres: “os incomodados que se mudem”. E foi o que eles fizeram. Os antigos empregadores, além de perderem excelentes colaboradores, ainda ganharam novos concorrentes.

O mundo pertence àqueles que, em certa medida, são eternamente insatisfeitos – mas que utilizam essa fonte de insatisfação como uma oportunidade para alçar voos maiores. São pessoas que enfrentam as dificuldades que a vida apresenta de um modo prático, como desafios que devem, podem e precisam ser superados para que façam jus ao prêmio desejado, o sucesso, seja ele o que for, segundo a concepção do indivíduo.

Foi a insatisfação com o ventilador que contribuiu para o desenvolvimento dos condicionadores de ar. A insatisfação com eventuais problemas de pagamento levou à criação do cartão de crédito e é a insatisfação com algumas situações que enfrentamos que devem servir de motivação para nossa evolução.

Muito frequentemente as pessoas dizem que não veem opção para mudar uma situação difícil e por isso iniciam um processo de manifestação da insatisfação através de queixas e críticas, “dando vazão’’ àquilo que as aflige. É o caso da pessoa que enfrentou uma situação de traição do parceiro, repetidas vezes, mas que, no fundo sente-se insegura para buscar um outro relacionamento; daquele que está trabalhando, há anos na empresa, com uma boa folha de serviços prestados e que não vê possibilidades de crescimento ou de aumento de salário, mas tem receio de buscar uma outra oportunidade no mercado; da pessoa muito apegada à família, que acredita que não saberá viver sozinha, esquecendo de viver a própria vida; daqueles que, por não saberem dizer “não”, vivem enfrentando situações problemáticas no campo dos relacionamentos e nas finanças pessoais. Bem, a lista de situações é muito grande. Não importa a situação, o que enfatizamos é a necessidade de dar vazão, de modo correto, à insatisfação, pois, caso isso não seja feito, podemos iniciar um processo que aumentará nosso desgaste físico e emocional de modo significativo, prejudicando nossa qualidade de vida.

Trataremos disso em nosso próximo artigo: como dar “vazão” à insatisfação inteligentemente.

Até lá!